Terceira Pessoa — início
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Edição

Basta que um pássaro voe | Rastro, Margem, Clarão

2020

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Basta que um pássaro voe | Rastro, Margem, Clarão

BASTA QUE UM PÁSSARO VOE é uma criação de Rui Dias Monteiro (fotografia) e de Vítor Ferreira (texto) desenvolvida no contexto do projeto pluridisciplinar “Rastro, Margem, Clarão”, no qual um coletivo de criadores em artes performativas, artes visuais e ensaístas se propôs pensar a escrita de Rui Nunes (n. 1947) nas suas heterogeneidades, nódulos temáticos e inquietações, numa abordagem arrojada e heuristicamente transdisciplinar.

—

— veja como tudo se move. Basta que um pássaro voe para que o mundo entre em movimento. São estas as coisas muito simples que vejo. As únicas que posso pensar.

Rui Nunes, Álbum de Retratos

Montemor-o-Novo, 2020. Rastro, Margem, Clarão. Para que o mundo entre em movimento: rezo, por fim, a oração que faltava. É também minha esta fotografia. Disse-te que a encontrarias. Havia imagens à tua espera nesse caminho, que, sozinhos e juntos, fizemos em diferentes dias, a diferentes velocidades, sob diferentes condições climáticas. Pago, por fim, o que te devo: uma cerveja Cristal, uma garrafa de água, num café em Paião.

O título deste livro, sugerido por RDM, apropria-se do excerto acima transcrito, mas não o conclui. Ao invés, exige a quem vê as fotografias um exercício de imaginação. O exercício de ver deve ser, acima de tudo, uma dúvida. Basta que um pássaro voe: para quê? Cabe, a cada um de nós, ver, isto é, inventar uma ficção.

(A luz é aqui diferente. Recorta os espinhos com a sua calidez)

Depois da fotografia. Os dois pássaros já levantaram voo. O sol está quase a pôr-se. Fechemos, portanto, com o último fragmento de Álbum de Retratos, com estas derradeiras palavras tão exactas na sua gaguez:

já não se sabe quem iniciou esta fala tão longa, foram nascendo dela as pessoas e nela sucessivamente se apagaram, algumas renasciam para completar descrições interrompidas ou prolongar desconhecimentos

o mundo é uma floresta vária: diz o narrador. Sente quase terminada a sua própria aventura e teme a opacidade de uma casa definitivamente construída

(eis o meu abandono)

Ecce homo.

[Excerto do ensaio de Vítor Ferreira]

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Basta que um pássaro voe | Rastro, Margem, Clarão
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